"...Foi numa dessas manhãs sem sol que percebi o quanto já estava dentro do que não suspeitava. E a tal ponto que tive a certeza súbita que não conseguiria mais sair. Não sabia até que ponto isso seria bom ou mau — mas de qualquer forma não conseguia definir o que se fez quando comecei a perceber as lembranças espatifadas pelo quarto. Não que houvesse fotografias ou qualquer coisa de muito concreto — certamente havia o concreto em algumas roupas, uma escova de dentes, alguns discos, um livro: as miudezas se amontoavam pelos cantos. Mas o que marcava e pesava mais era o intangível. (...) E minha mão esquerda tocava uma ausência sobre a cama. Tudo isso me perturbava porque eu pensara até então que, de certa forma, toda minha evolução conduzira lentamente a uma espécie de não-precisar-de-ninguém. Até então aceitara todas as ausências e dizia muitas vezes para os outros que me sentia um pouco como um álbum de retratos. Carregava centenas de fotografias amarelecidas em páginas que folheava detidamente durante a insônia e dentro dos ônibus olhando pelas janelas e nos elevadores de edifícios altos e em todos os lugares onde de repente ficava sozinho comigo mesmo. Virava as páginas lentamente, há muito tempo antes, e não me surpreendia nem me atemorizava pensar que muito tempo depois estaria da mesma forma de mãos dadas com um outro eu amortecido — da mesma forma — revendo antigas fotografias. Mas o que me doía, agora, era um passado próximo. Não conseguia compreender como conseguira penetrar naquilo sem ter consciência e sem o menor policiamento: logo eu, que confiava nos meus processos, e que dizia sempre saber de tudo quanto fazia ou dizia. A vida era lenta e eu podia comandá-la. Essa crença fácil tinha me alimentado até o momento em que, deitado ali, no meio da manhã sem sol, olhos fixos no teto claro, suportava um cigarro na mão direita e uma ausência na mão esquerda. Seria sem sentido chorar, então chorei enquanto a chuva caía porque estava tão sozinho que o melhor a ser feito era qualquer coisa sem sentido. Durante algum tempo fiz coisas antigas como chorar e sentir saudade da maneira mais humana possível: fiz coisas antigas e humanas como se elas me solucionassem. Não solucionaram. Então fui penetrando de leve numa região esverdeada em direção a qualquer coisa como uma lembrança depois da qual não haveria depois. Era talvez uma coisa tão antiga e tão humana quanto qualquer outra, mas não tentei defini-la. Deixei que o verde se espalhasse e os olhos quase fechados e os ouvidos separassem do som dos pingos da chuva batendo sobre os telhados de zinco uma voz que crescia numa história contada devagar como se eu ainda fosse menino e ainda houvesse tias solteironas pelos corredores contando histórias em dias de chuva e sonhos fritos em açúcar e canela e manteiga."
Primeiro foi a euforia por me sentir livre. Não, não livre da fidelidade. A esta, eu sequer me obrigava. Era apenas a consequencia lógica da posição em que eu mesma me coloquei. Liberdade, sim, da angústia perene que foi a única companheira de meses a fio. Após acreditar que paz e tranquilidade eram elefantes brancos, que eu nunca os sentiria por mais de uns segundos, cada novo dia livre do peso transformou o que deveria ser o luto da esperança morta, enterrada e decomposta em praticamente um festejo de ressurreição - a minha.
Com o passar dos dias, com as faculdades cerebrais livres do entorpecimento da antiga droga, os flashes de momentos se encaixando como nos momentos finais de um filme, em que tudo faz sentido e se encaixa, e o telespectador atônito percebe o quanto errou a direção, acreditando em outro final durante todo o percurso da narrativa.
E é então que se conclui que, de um relacionamento que acaba, é lamentável quando sequer se pode dizer que foi bom enquanto durou.
Primeiro foi a euforia por me sentir livre. Não, não livre da fidelidade. A esta, eu sequer me obrigava. Era apenas a consequencia lógica da posição em que eu mesma me coloquei. Liberdade, sim, da angústia perene que foi a única companheira de meses a fio. Após acreditar que paz e tranquilidade eram elefantes brancos, que eu nunca os sentiria por mais de uns segundos, cada novo dia livre do peso transformou o que deveria ser o luto da esperança morta, enterrada e decomposta em praticamente um festejo de ressurreição - a minha.
Com o passar dos dias, com as faculdades cerebrais livres do entorpecimento da antiga droga, os flashes de momentos se encaixando como nos momentos finais de um filme, em que tudo faz sentido e se encaixa, e o telespectador atônito percebe o quanto errou a direção, acreditando em outro final durante todo o percurso da narrativa.
E é então que se conclui que, de um relacionamento que acaba, é lamentável quando sequer se pode dizer que foi bom enquanto durou.

2 comentários:
Que lindo, forte, e profundo! Quantas imagens bem descritas, carregadas de emoçõs latejantes! Duro, muito duro! Te entendo.
É cara Ollie... o que tenho a dizer?? Vou me casar... em fevereiro o dia será confirmado amanhã. Prepara a passagem.
No mais tem que ser olho no olho.
Sobre BAires... é questão de tempo.
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